Na maior parte, vou tentar comentar e indicar filmes que estejam um pouco fora do circuito comum, pra trazer algumas novas e diferentes opções. E como gosto de filmes antigos também, alguns vão aparecer.
Lógico que nem sempre as opiniões valerão para todos... cada um realmente tem gosto e interesse diferentes!
Vossos comentários e opiniões serão bem vindos!

Um forte abraço e um aperto de mão leve...

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quarta-feira, 19 de junho de 2013

SOUND OF MY VOICE - 2011

Mais um exemplo de cinema low budget com boas ideias


Após escrever e ser a atriz principal do inteligente A Outra Terra (Another Earth), que inclusive já foi escrito e comentado aqui neste blog, a atriz e roteirista Brit Marling traz para o cinema mais uma boa ideia em Sound of My Voice, seguindo mais ou menos a mesma linha deste filme anterior.

Ela, na verdade, já vem aparecendo em produções mais do mainstream (recentemente no A Negociação com Richard Gere e o Sem Proteção do Robert Redford), mas está deixando espaço para filmes mais inventivos, como é o caso deste aqui em questão. Vamos ver se continuará assim e que não seja apenas mais um rostinho bonito no cinema. Boas ideias ela tem.

A Outra Terra e Sound of My Voice, além de serem independentes e de baixo orçamento, também tem em comum a mistura de história sci-fi com apelos mais dramáticos. O low budget desta nova produção é mais uma vez compensado com a intensidade da narrativa, que não atinge o mesmo nível de A Outra Terra, mas consegue ser mais um trabalho competente e agradável que vale a pena ser recomendado.

Neste seu filme anterior que citei, a personagem de Brit Marling lida com problemas de relacionamento após uma tragédia, ao mesmo tempo em que um novo planeta, semelhante à Terra, é descoberto e se encaminha em nossa direção. Este novo planeta funciona como uma realidade paralela. Em Sound of My Voice a história é diferente, mas se assemelha na mistura que descrevi acima.  Ela interpreta uma líder de um culto secreto que é investigado por um casal de jornalistas. Eles estão interessados em desmascarar seus fundamentos e realizar um documentário sobre o tema. A diferença desta líder do culto para os outros é que ela diz ter vindo do futuro.

 
Em primeiro lugar, um filme baseado em uma inverstigação sobre cultos ou seitas já gera uma certa curiosidade, pelo menos para mim. Para citar alguns exemplos bem interessantes do cinema sobre o tema, vale ver ou rever O Homem de Palha de 1973, já escrito nesse blog, e De Olhos Bem Fechados do Kubrick. Os cultos já são enigmáticos por si só, principalmente pela enormidade de teorias e crenças diferentes que existem por aí e pelo poder, às vezes fascinante, que exercem sobre seus seguidores.

No caso da história, ela não traz grandes reviravoltas, mas intensidade não falta. Desde a cena inicial, quando o casal de jornalistas deve passar por uma espécie de ritual para entrar no grupo, até o seu final, a intensidade se mantém e a dúvida principal fica no ar e pode ter resposta ou não, dependendo da sua interpretação. A narrativa é bem estruturada, inteligente, tensa, mas sem exageros ou sustos, e prende a atenção. O problema é que você ficará com aquela sensação de quero mais...


Enfim, este filme participou do Festival de Sundance nos EUA no ano passado, o principal evento do cinema independente, e gerou certa repercussão por lá. Foi exibido recentemente, infelizmente sem repercussão nenhuma, no Centro Cultural de São Paulo, porém a chance de estrear nos cinemas brasileiros em circuito maior é muito pequena. Provavelmente entrará direto no DVD. Recomendado.

http://www.imdb.com/title/tt1748207

quinta-feira, 25 de abril de 2013

NO - 2012

Estilo retrô decente é uma entre as boas qualidades de No
 

Não se preocupe se o seu interesse por cinema político é baixo. O diretor chileno Pablo Larrain trata de política, mas não só isso. Até vale dizer que a crítica política parece fazer parte de todos seus outros filmes também. A começar pelo que já vi dele, o melancólico Tony Manero, que tem pano de fundo político também, talvez até mais evidente do que em No. A premissa parece até divertida (esse filme conta sobre uma pessoa obsessiva pelo personagem Tony Manero, interpretado por John Travolta em Os Embalos de Sábado à Noite, e parece viver para se tornar uma imitação fiel do ídolo) mas o filme é triste.

No é seu último filme e com ele o diretor recebeu sua primeira e merecida indicação ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro neste ano e foi definitivamente notado por crítica e público. Não tem uma carreira longa e já parece ser bem promissor.

A história, baseada em fatos reais, conta os bastidores de um plebiscito, no final dos anos 80, com o objetivo de definir se o então ditador Augusto Pinochet continuaria mais 8 anos no poder ou se a eleição se tornaria democrática. Então, foram estabelecidas duas frentes de oposição: quem era a favor do SIM à continuidade do presidente militar no poder e quem era a favor do voto democrático, no caso o NÃO. Aí entra em cena o personagem de Gael Garcia Bernal, um publicitário de sucesso, dono de uma agência de publicidade, que será o cabeça no desenvolvimento e criação da campanha do NÃO. Em contrapartida, seu sócio estará ligado diretamente à campanha do SIM.

 
O filme conta um momento histórico do Chile, que o diretor transmite, até certo ponto, de forma leve, mas com conteúdo. A retaguarda política da história é mascarada por uma guerra de marketing. Essa mistura, que mostra a campanha como ferramenta importante e fundamental neste plebiscito, deixa a trama potencialmente agradável à todos, mesmo que política não seja o seu forte. Pode acreditar.

Existem muitas curiosidades na história e criativas escolhas feitas pelo diretor. Uma ótima é a ideia de trazer todo o clima anos 80 para a história. Isso se vê com as próprias propagandas originais da época e o estilo meio documental com imagens distorcidas, sombras e cores falhas. A intenção de passar ao público a sensação de estar vendo uma fita de VHS foi um acerto em cheio.

Já com relação a história, tendo em vista o papel da campanha no resultado, vale analisar e discutir como se desenrola seu caminho até o final. É muito interessante acompanhar a mudança de uma pré-campanha racional/tradicional para uma linguagem publicitária com lado emocional, a manipulação política já manjada, a resposta do público às mensagens e também a rivalidade entre os dois lados. Pra quem é desse ramo, melhor ainda.


Outro ponto que pode ser destacado também é a relação entre os personagens rivais. Gael Garcia e seu sócio, a dupla principal, se duelam na campanha e geram diálogos ótimos. Suas diferenças se multiplicam e ficam quase insustentáveis, ao mesmo tempo em que precisam continuar trabalhando juntos. Parte marcante da história.

Enfim, há pontos altos expressivos no geral e muitos a serem valorizados, mas vale você descobrí-los ao longo da história. Altamente recomendável, passou no cinema recentemente e já já deve ser lançado em DVD/Blu-Ray. Recomendado.

segunda-feira, 25 de março de 2013

A CAÇA - 2012

Precursor do Dogma 95, diretor acerta em cheio novamente.
 
 
Conferi a estréia nesse último final de semana desse filmaço no Espaço Unibanco. Infelizmente só está passando neste cinema aqui em São Paulo, o que é estranho porque, por mais que seja um filme dinamarquês, é um filme razoavelmente badalado. Tanto é que fez seu sucesso na Mostra de São Paulo no final do ano passado e ganhou diversos prêmios pelo mundo, sendo lembrado também em Cannes. Ou seja, tem muito mais público que muito coisa que tem por aí.
 
Apesar de ter feito o ótimo Querida Wendy e o bom Submarino, já postado há um bom tempo aqui no Blog, é sempre bom lembrar que o diretor Thomas Vinterberg é um dos precursores do Dogma 95 junto à Lars Von Trier. Seu principal filme, Festa de Família, marcou esse movimento e marcou sua carreira também. E apesar de ter feito bons filmes depois, alguns que acabei de citar, ainda se esperava algo tão marcante quanto este seu primeiro. Pois é, parece que agora foi.
 
A história de conflitos e polêmicas deste A Caça é, sem dúvida, tão impactante quanto em Festa de Família e é onde o diretor parece mostrar seu maior valor. E se não bastasse a direção segura, temos a presença de Mads Mikkelsen como ator principal em um papel digno de Oscar. Impressiona o quão expressivo ele é.
 
Ele interpreta uma espécie de assistente geral de uma escola de crianças em uma comunidade fechada. Pai separado e com diversos amigos, luta para ter seu filho mais perto, além de iniciar também um promissor romance com uma estrangeira que trabalha na mesma escola. Porém, sua vida terá uma mudança radical quando a filha de seu melhor amigo, em um momento do tipo birra de criança, lança uma mentira inocente daquelas que nem seu maior inimigo mereceria receber. E aí começa...
 
 
Ao melhor estilo Dogma, o diretor usa câmera de mão em boa parte do filme e segue um roteiro de forma linear que vai avançando no tempo, o que deixa a história bem fácil de ser acompanhada e o foco fica quase exclusivo para os conflitos da trama. Aliás o roteiro é o que há de melhor. Não há vilões e as atitudes condizem com os fatos criados. Diálogos bem escritos, sem dúvida, e em nenhum momento as reações dos personagens parecem exageradas ou inverossímeis. Há um visível cuidado do diretor sobre nisso, como fez em seus outros filmes.
 
E entre diversas qualidades que poderão ser percebidas durante o filme, existe somente uma ressalva quanto ao desfecho que não chega a decepcionar, mas deixa uma sensação de que poderia ser muito mais do que foi, até porque o próprio diretor sempre caprichou nessa parte em seus filmes anteriores. Festa de Família e Querida Wendy estão aí pra não me deixar mentir.
 
Independente disso, o filme é de um nível muito acima da média e quase mereceu um dez pelo conjunto da obra porque é realmente de tirar o fôlego. Está nos cinemas e em circuito restrito, infelizmente, mas vale o esforço de correr atrás enquanto ainda há tempo de vê-lo na tela grande que é sempre melhor. Recomendadíssimo.

http://www.imdb.com/title/tt2106476/?ref_=sr_1

terça-feira, 27 de novembro de 2012

O RETORNO - 2003

Você não esquecerá tão fácil esse filme...


Já estava flertando este filme há algum tempo, mas não sei porque já o tinha esquecido entre outras opções que estavam em minha lista. Estou tremendamente arrependido de não tê-lo assistido antes. É uma pérola. E nem tão escondida assim.

Ganhador de inúmeros prêmios (ator, diretor, cinematografia e filme) em diversos festivais, principalmente europeus, este filme russo (nome original Vozvrashchenie) também concorreu em 2003 com Adeus Lenin e As Invasões Bárbaras ao prêmio de melhor filme estrangeiro no Globo de Ouro. Nenhum deles venceu, mas sua participação já é válida e talvez até merecesse maior sorte.

É um filme com inúmeros destaques e fica difícil mencionar todos aqui, mas alguns são bastante evidentes. Antes disso, vale passar uma ideia da história do filme. Nela, dois irmãos vivem aparentemente uma infância comum. Criados pela mãe e talvez pela avó também, isso não fica muito claro, brigam entre si e procuram ser aceitos pelos amigos como qualquer criança comum. Esta parte já sabemos nos primeiros 5 minutos, quando então acontece a virada que movimenta a trama. O pai, que até então não existia ou estava desaparecido, aparece sem motivo aparente e provoca diferentes sensações e atitudes entre os garotos.
 
O caminho em que a história nos leva, que poderia ser um típico relacionamento de superação entre pai e filhos, terá dimensões maiores e surpresas. É claro que é um filme europeu, portanto já é esperado aquela cadência habitual deste tipo de cinema. Se estiver preparado para isso, você não irá se arrepender. O fato de ser de certa forma lento, poderá contar a seu favor no resultado final. 
 
A reviravolta, que não cabe a mim dizer qual é e quando será, poderá deixá-lo confuso, mas irá trazer novas ideias e pensamentos, pode acreditar. O drama se torna um enigma, interpretativo e cheio de simbolismos. Tem muita coisa a ser descoberta ainda. A certeza é que você não o esquecerá tão cedo.
 
 
Os personagens, sem contar as ótimas interpretações, são excepcionais. A oposição entre os irmãos e a insensibilidade do pai são convincentes e descartam o melodrama básico em que o filme poderia cair. Ponto positivo para o roteiro. E juntando tudo isso com uma boa produção e belas locações, temos um filme quase completo. Só falta eu assistir de novo.
 
O bacana é que estes filmes enigmáticos geralmente tem fóruns fervorosos na internet. Dito e feito. O curioso destes fóruns é que a maioria interpreta da forma que quer e ideias mirabolantes, e até engraçadas, aparecem. Uma delas, a referência de uma cena com um quadro artístico, valeu a pena. Certamente não teria percebido a relação entre eles sozinho. Obrigado amigo do fórum. Só comentarei esta cena com aqueles que já assistiram (sem spoilers aqui!)...
 
Facilmente encontrado nas locadoras e na internet, fica aqui esta dica que pode agradar, talvez não a todos.

http://www.imdb.com/title/tt0376968

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

COSMÓPOLIS - 2012

Cronenberg de volta as raízes?


Após um período fazendo cinema mais direcionado para o público geral, sem deixar de trazer alguns momentos que definem seu estilo, eis que Cronenberg retoma seu lado perturbador e polêmico, e que o fez ser tão cultuado como é, nesta sua última realização chamada Cosmópolis. Não que seus últimos trabalhos tenham sido ruins, pelo contrário, Um Método Perigoso, Senhores do Crime e Marcas da Violência são ótimos filmes e de altíssimo nível, porém seus mais fiéis seguidores certamente contavam com seu retorno, em algum momento, as suas raízes na linha de Gêmeos, A Mosca, Videodrome e Scanners.
Pois é, o velho Cronenberg está mais próximo de suas raízes em  Cosmópolis. Longe de ser bizarro como nos trabalhos mais antigos citados, o diretor retorna, neste novo longa, aos personagens enigmáticos e situações nada convencionais.
Assim acompanhamos, desde o início da história, o ator principal do filme, Robert Pattinson, o conhecido vampiro boa praça da série Crepúsculo. Ele é Eric Packer e representa um típico homem de negócios do mundo atual, jovem, bilionário e excêntrico. Entende o mundo das ações como poucos e utiliza sua inteligência em benefício próprio.
A aventura desse anti-herói  inicia com sua vontade de cortar o cabelo. Como é uma pessoa visada, atravessar alguns blocos para realizar esta tarefa, mesmo que de carro, requer muita atenção de seu “staff” para garantir sua segurança. Percorre o caminho em sua limusine, ao mesmo tempo em que encontra diferentes personagens de sua vida profissional e pessoal.
Cosmópolis é um prato cheio para os fãs de Cronenberg. Não traz personagens tão complexos, mas os perturbados e problemáticos, que sempre apreciou, estão aqui. E não de graça. Há um tom geral de superficialidade que certamente reproduz o mundo social do business man moderno. Claro que de um jeito bem característico do diretor.

O filme é conduzido, na maior parte, dentro da limusine de Eric, onde ele passa por situações inusitadas, como por exemplo, um exame de próstata que faz ali dentro mesmo. Os diálogos são, quase todos, surreais, como se a intenção do diretor fosse transformar o mundo financeiro de Eric em algo inverossímil ou em um sonho. David Lynch assinaria embaixo. E a presença curta, mas marcante de coadjuvantes de peso como Juliete Binoche e Paul Giamatti, também ajudam bastante no resultado final.

 
O filme é um desafio completo. Um desafio para o diretor, que tenta retomar seu lado mais obscuro, outro desafio para o público que tem de aceitar, apreciar e entender suas ideias, e um desafio ainda maior para o ator principal, que tenta fazer o público esquecer a sua referência de rapaz romântico e bonzinho para ser um personagem detestável.  E ele consegue.
Agora, pra finalizar, vale dizer que este filme não foi bem recebido pela crítica em geral e pelo público. Não me importo e o recomendo, mesmo não o colocando entre as melhores obras do diretor. Está ainda nos cinemas e para aqueles que quiserem encarar o desafio, fica aí a dica.

terça-feira, 25 de setembro de 2012

NÃO ME ABANDONE JAMAIS - 2010

Preparem os lenços!


Gosta de filmes depressivos? E extremamente depressivos?

Fato: independente do clima pesado, este filme é tecnicamente impecável, tem boa história e fotografia de alto nível. Tem romance? Posso até dizer que sim, mas passa longe do água com açucar. É melancólico como poucos que já vi. Depois dos primeiros 15 minutos, quando sabemos onde a história vai chegar, um lenço no bolso será bem vindo. Agora, porque assistir um filme como esse? Porque é bom, simples assim.

A história gira em torno da vida de três personagens aparentemente comuns, Ruth, Kathy e Tommy. Encontram-se ainda crianças em um colégio extremamente rígido, onde não tinham contato com o mundo exterior. Com o tempo se tornam mais próximos um do outro. A princípio, não parecem ter uma infância ou adolescência tão incomum, até que uma nova professora conta para eles, e para os outros alunos do mesmo colégio, que o futuro deles é diferente. Ela os prepara para o destino previamente definido para cada um.

A base da história é fantasiosa e ambientada em uma realidade alternativa a nossa, mas é difícil considerar esse filme como ficção. O apelo dramático é dominante e o assunto atual. Pode não ser tão original em seu conceito, outros filmes já abordaram assuntos semelhantes aos tratados aqui, mas é inegável a competência com que foi realizado.

O clima sombrio, triste e com cenas difíceis de digerir, é balanceado com momentos até sensíveis e delicados, pode acreditar. Fica clara a intenção do diretor em criar um filme forte, mas sem ser apelativo. E consegue fazer isso bem. Sem dúvida, não é um filme que vai se apagar tão cedo de sua memória.

O elenco principal é o fino da nova safra de atores, que inclui Andrew Garfield, de A Rede Social e o novo Homem-Aranha, Keira Knightley, do recente Um Método Perigoso do David Cronenberg, e também Carey Mulligan, do ótimo Drive.

É um  filme que recebeu alguns prêmios em festivais menores, o que já pode valer como uma boa referência. Já lançado em DVD e em Blu-Ray, e fácil de achar, recomendo para quem gosta de acompanhar filmes de impacto e não se importa muito em acompanhá-lo com uma certa tristeza no coração...
 
http://www.imdb.com/title/tt1334260

terça-feira, 10 de julho de 2012

CAFE DE FLORE - 2011

Pra começar, a trilha sonora é de primeira...


O diretor canadense do excelente C.R.A.Z.Y de 2005, Jean Marc-Vallé, acerta também com este Cafe de Flore. Apesar de ser um diretor com ainda pouca experiência, é possível perceber um estilo próprio quando comparamos estes dois filmes. Tem talento, sem dúvida, e está na minha lista para ser acompanhado em suas próximas realizações.

Novamente investe em uma história sobre relacionamentos familiares com personagens imperfeitos, onde desenvolve, com competência, uma narrativa não linear, obrigando a quem assiste muito mais atenção. Bom sinal, pelo menos para mim, principalmente porque esta estrutura de filmagem  faz o filme funcionar bem.

Na história, que parece um quebra-cabeça, existem três personagens principais em dois tempos diferentes: um bem-sucedido DJ e sua ex-esposa, no tempo atual, e uma mãe solteira com seu filho deficiente, no final dos anos 60. O DJ e sua ex-esposa vivem momentos diferentes. Ele feliz com um novo relacionamento, enquanto que ela enfrenta dificuldade para encarar a vida após a separação. Enquanto isso, também acompanhamos a mãe solteira e os problemas diários de seu filho com Sindrome de Dawn. Convém não procurar mais informações sobre a história para não estragar certas surpresas.

A forma como as cenas são apresentadas e a montagem são de gente que sabe o que faz. Não há cenas longas, praticamente apenas cenas curtas com cortes abruptos, e sem ordem com os personagens, mas se encaixam muito bem com o tempo. Requer uma concentração maior do espectador e talvez um pouco mais de paciência, mas mesmo que pareça confuso no início, sua narrativa não é difícil de acompanhar ou complexa. Os cortes rápidos parecem ser cuidadosamente calculados.

Além disso, como acontece em C.R.A.Z.Y, que tem uma trilha sonora anos 70 de bom gosto com Pink Floyd, David Bowie e outros, o som psicodélico retorna neste filme também, principalmente quando ouvimos logo no início a Breath do Pink Floyd, que chega a arrepiar... Confesso que esta preferência musical do diretor, me faz dar muitos pontos a favor para o filme, é claro! E talvez uma boa sacada dele seja mesmo esta boa escolha musical, mas o que torna engenhoso de sua parte é a conexão que faz da trilha sonora com os personagens.


Enfim, não tenho ideia se será ou quando será lançado no Brasil. Também não duvido que saia nos cinemas este ano mesmo, mas provavelmente demore um pouco. Quem tiver interesse pela ideia do filme e não quiser esperar muito, na internet está bem fácil de achar. E vale indicar o filme anterior deste mesmo diretor também, C.R.A.Z.Y, que não escrevi aqui no blog, mas vale a pena. Ambos de alto nível.

http://www.imdb.com/title/tt1550312/

sábado, 19 de maio de 2012

QUERIDA VOY A COMPRAR CIGARRILLOS Y VUELVO - 2011

Diretores de O Homem do Lado acertam novamente.


Após a realização do ótimo O Homem do Lado, os diretores argentinos Mariano Cohn e Gastón Duprat retornam em mais um drama/comédia de alto nível. Reafirmam mais uma vez a excelente fase do cinema de nossos vizinhos. Como acontece no filme anterior, a dupla desenvolve uma boa história repleta de humor negro e crítica à vida cotidiana. Sem dúvida aprenderam bastante com os irmãos Coen... com marca e estilo próprios, é claro.

Mesmo que a história tenha uma premissa de um filme de ficção, é na verdade um pano de fundo para o pessimismo e a mediocridade do ser humano. Isto se mistura com um humor afiado e inteligente que está se tornando uma marca registrada dos diretores. Talvez neste filme seja até mais evidente, que o anterior, a intenção de criar cenas divertidas em momentos de desgraça.

O filme é baseado em um conto do escritor argentino Alberto Laiseca que, inclusive, faz parte do elenco sendo o próprio narrador da história. Já no início ele narra como um homem comum se transforma em um imortal. Este homem, ao invés de aproveitar seu dom, decide viver no anonimato. Com poderes também de comandar tudo em sua volta, decide ajudar um senhor que conhece em um bar, chamado Ernesto, cuja vida parece ser monótona e sem grandes ambições. Faz uma proposta e lhe dá uma chance de voltar no tempo, há 10 anos atrás, com a cabeça experiente de seus 60 e poucos anos que tem hoje.

Com esta história de ficção, os diretores expõem a ideia de que mesmo com infinitas possibilidades, o ser humano faz escolhas medíocres. Eles expõem atitudes fundamentalmente egoístas do homem e trazem uma reflexão sobre a condição humana. Pode ser depressiva a forma como são passadas algumas mensagens neste filme, mas em diversos pontos diverte muito. É um contraponto bem interessante, sem dúvida.

Com inúmeras qualidades, vale mencionar os personagens interessantes criados pelo autor e, talvez o maior acerto do filme, ter o próprio autor como o contador da história. Ele é como um narrador à moda antiga. Daqueles que narram um conto com a plena consciência da história sem esconder os sentimentos pelos personagens.

Mesmo assim, no geral, não sei se é um tipo de filme que agradará a maioria. Tem um desenvolvimento lento, mas, ainda assim, recomendo pela boa ideia e pela execução bem acima da média. Passou no Festival do Rio no final do ano passado, mas ainda está sem previsão de lançamento e distribuição aqui no Brasil, pelo menos não encontrei notícia à respeito. Portanto, quem tiver interesse, somente encontrará este filme na internet. Boa pedida.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

O ANJO EXTERMINADOR - 1957

O cinema surreal clássico de Luis Buñuel.


Para quem aprecia surrealismo e cinema juntos, o nome é Luis Buñuel. Influente e reverenciado por muitos cineastas e cinéfilos, fez seu primeiro filme, O Cão Andaluz, ainda na época do cinema mudo. Foi sua porta de entrada para a sétima arte e um dos mais lembrados filmes surreais de toda a história do cinema. Na realidade é um curta metragem que apresenta cenas incomuns, sem ligação aparente, e não chega a vinte minutos. Uma grande viagem que gerou forte repercussão na época, realizada em parceria com Salvador Dalí, outro artista surrealista.

Entre outros inúmeros filmes surreais que fez após este primeiro, em 1957 fez O Anjo Exterminador, também seguindo a mesma linha, mas bem mais palatável. De qualquer forma, é mais um exemplo de seu cinema diferente que, desta vez, coloca os personagens em um único cenário, durante quase todo o filme. Na verdade, o que vale mesmo é falar o menos possível da história para que seu desenvolvimento seja surpreendente para quem assiste.

Para resumir a história, um grupo de pessoas da alta sociedade é convidado para um jantar comum, como qualquer outro que costumam participar. Só que após o jantar, sem qualquer explicação, os convidados não conseguem sair de uma determinada sala... Aparentemente nada os impede de sair, mas eles simplesmente não conseguem.

Talvez, ao invés de fazermos análises intelectuais, entender analogias, simbolismos ou se o tom do filme é político, vale mais acompanhar o desenrolar da história, sem aquele instinto de tentar decifrar as mensagens nas entrelinhas. É curioso ver pessoas da alta sociedade deixarem de lado a etiqueta e a máscara quando colocados em situações extremas...

Uma curiosidade: para aqueles que já assistiram o último filme do diretor Woody Allen, Meia-noite em Paris, lá existem inúmeras referências e brincadeiras com vários artistas de diversas áreas... Escritores, pintores e cineastas. E na história deste filme, Owen Wilson, o protagonista, encontra estes artistas pessoalmente no passado. Um dos mais engraçados encontros é quando ele encontra Luis Bunuel e brinca com a história do O Anjo Exterminador.

Não está entre os mais conhecidos do diretor como A Bela da Tarde ou O Discreto Charme da Burguesia, mas vale a pena procurar nas locadoras de acervos maiores ou pela internet mesmo. O cinema de Buñuel é, no mínimo, interessante.

http://www.imdb.com/title/tt0056732


terça-feira, 3 de abril de 2012

DRIVE - 2011

Será este um dos candidatos a filme cool da década?


A impressão que fica, ao terminar de ver este filme, é a de que tudo se encaixa. Um clássico cult instantâneo. Difícil descrever, mas até as cenas violentas, que não são poucas, são muito mais do que mera brutalidade. Baseado em um livro de James Sallis, tinha tudo para ser um novo blockbuster de ação como Velozes e Furiosos, mas se tornou algo muito além. O filme é cool demais, como diriam na "América"! Violento e cheio de estilo, Tarantino assinaria embaixo. E a trilha sonora? Perfeita...

O diretor dinamarquês Nicolas Winding Refn, pouco conhecido pelo público em geral, tem na violência parte fundamental de seus filmes anteriores, como a trilogia Pusher e o estranho Bronson. Só que com Drive, dá um passo largo para frente e coloca seu nome no cinema com a força que merece. Até porque entrou de vez no mercado americano.

Resumindo em poucas palavras, a base da história pode até parecer um filme de ação comum, o mocinho mexe com os vilões errados para depois salvar uma garota, mas só parece. É apenas a base mesmo e o filme em si tem uma linguagem muito mais atraente e com bem mais conteúdo. Isso é garantido...

E falando em conteúdo, para quem ainda não viu o filme, Ryan Gosling, que interpreta o Driver (motorista), trabalha em uma oficina de carros durante o dia e tem um trabalho paralelo como dublê em filmes, principalmente em cenas perigosas envolvendo carros. Só que ainda faz algo extra, mostrado logo no início. Ele é contratado para participar de roubos, mas apenas como motorista de fuga. O perigo real aparece quando se sente atraído por sua vizinha, Irene (interpretada por Carey Mulligan, que também está em Shame). Ela é casada com um presidiário prestes a sair da prisão.

Com aquele típico clima elegante de filme noir dos anos 40 e 50 e uma história de ação urbana ao estilo spaghetti-western anos 60 de Sergio Leone, Drive nos remete ainda aos anos 80 usando uma trilha sonora do tipo eletropop, uma das marcas desta época, com muito sintetizador e baterias eletrônicas. A melodia principal "A Real Hero", em tom de balada dramática, faz uma conexão mais que perfeita com o personagem principal.

E como Ryan Gosling escolhe bem seus filmes e personagens! Desde seus primeiros, Tolerância Zero por exemplo, vem marcando sua trajetória no cinema como um dos atores de ponta, tanto em Hollywood quanto em filmes alternativos. Neste papel em Drive, faz o melhor estilo Clint Eastwood de Sergio Leone... O herói misterioso sem nome, sem passado, solitário, frio e introspectivo que demonstra suas emoções apenas através de olhares e poucos sorrisos.

Diálogo para ficar na memória:
Irene para Driver: "O que você da faz da vida?"
Driver: "Eu dirijo"

Ainda em exibição em alguns cinemas é um programa imperdível para quem quiser acompanhar o filme cool do momento. Recomendo e muito!

http://www.imdb.com/title/tt0780504


quinta-feira, 22 de março de 2012

SHAME - 2011

Compulsão sexual tratada com o peso do problema.


Estreou nos cinemas, neste último final de semana, este que é o segundo longa-metragem do diretor Steve McQueen, que já havia impressionado com seu primeiro filme Hunger (importante não confundir o diretor com o antigo astro, já falecido, de Sete Homens e um Destino e Papillon). Após Hunger, que conta a história de um prisioneiro que lidera uma greve de fome, este novo diretor volta com um assunto ainda mais polêmico em Shame. Novamente contando com o mesmo ator, um dos principais do momento, o diretor faz um filme melhor e mais contundente.

O ator principal, Michael Fassbender, vem mesmo marcando muito bem sua presença no cenário do cinema atual. Só neste último ano, apareceu em três filmes de impacto. O blockbuster X-Men First Class, o último do diretor Cronenberg chamado Um Método Perigoso, que ainda passará nos cinemas brasileiros, e neste Shame que talvez tenha sido a interpretação que mais chamou a atenção dos críticos... Foi um dos indicados ao prêmio de ator principal no Globo de Ouro por esta atuação.

Na história deste filme, Brandon (Fassbender) é um homem que tenta conviver com seu vício sexual em uma grande metrópole, Nova York. Seu desafio na vida é administrar o vício com o dia a dia de seu trabalho, até que sua irmã aparece em seu apartamento para ficar por alguns dias. A partir daí, sua rotina muda e Brandon tem que adaptar sua vida a esta nova realidade provisória.

A compulsão sexual, tratada por muitos como algo pouco relevante e até como piada, aqui é inserido como um problema social grave. A primeira cena do filme, com Brandon parado em sua cama por alguns segundos sem se mover e sem piscar os olhos, tem a clara intenção de apresentar um personagem atormentado. A vida sociável bem conduzida e sua aparente independência, na verdade, escondem uma pessoa solitária e arrependida pelos hábitos que não consegue mudar.

Perturbador e reflexivo de forma equilibrada, Shame está recheado de cenas de sexo e nudez, mas não de forma erótica ou sensual. O vício de Brandon chega a ser desesperador em certos momentos. E além da preocupação de ambientar o espectador neste mundo obscuro do personagem, outra qualidade do filme é expor o problema sem a intenção de resolvê-lo, o que deixa a história mais verdadeira e compreensível.

“Action counts, not words”. Curiosamente é uma frase que faz parte dos diálogos de Brandon com sua irmã e transmite uma das mensagens do diretor... Um filme de poucas palavras e mais ação. O clima intenso se deve muito às cenas com tomadas longas e sem cortes. Só para ter uma ideia, é possível perceber a mistura de desejo e angústia do personagem principal através de diversos closes sem diálogos, apenas trocas de olhares.

Enfim, fica a dica para procurar este drama polêmico e convincente nos cinemas, pois está em exibição em diversas salas e vale a pena conferir o quanto antes. Recomendado.

http://www.imdb.com/title/tt1723811


quinta-feira, 1 de março de 2012

O ABRIGO - 2011

Esquecido pelo Oscar, mais um achado...


O ator Michael Shannon adora interpretar personagens perturbados. Ele é realmente muito bom, mas parece que seu tipo se encaixa perfeitamente no papel de pessoas problemáticas. Foi nomeado ao Oscar pelo seu papel como um homem estranho e violento em Foi Apenas Um Sonho, do diretor Sam Mendes, atuou em filmes perturbadores como Possuídos e Vício Frenético e, recentemente, bateu seu recorde em esquisitice interpretando um homem que está próximo de matar a própria mãe com uma espada, no penúltimo filme de Werner Herzog chamado My Son, My Son, What Have You Done. São papéis difíceis e ele sempre fez muito bem. E neste O Abrigo (nome original Take Shelter), a diferença é que ele fez o seu melhor, pelo menos em relação a estes filmes que acompanhei do ator. Uma atuação de gala complementada com a nova sensação do cinema, e indicada ao Oscar por Vidas Cruzadas, Jessica Chastain.

Michael Shannon interpreta Curtis, um operário comum que leva uma boa vida familiar, com sua esposa e filha, e também bons relacionamentos com amigos e colegas de trabalho. Sua vida tranquila muda quando começa a ter pesadelos e visões apocalípticas. Decide reformar e ampliar o abrigo de sua casa, que existe para eventuais catástrofes da natureza, para proteger sua família de um desastre de grandes proporções que poderá acontecer, de acordo com suas visões. Ao mesmo tempo, entende também que tem um histórico familar de esquizofrenia, por parte de mãe, que pode ser uma das explicações para suas alucinações.

Sem Michael Shannon, talvez o diretor, Jeff Nichols, não teria o mesmo resultado poderoso que teve com este filme. O ator tem a proeza de conseguir gerar no espectador sentimentos de compaixão e medo ao mesmo tempo. Há cenas brilhantes no filme... O surto em público de Curtis é memorável. E ainda tem a bela atuação da mais nova queridinha do cinema americano, Jessica Chastain, que faz a esposa de Curtis. Ela complementa a boa escolha de elenco que trabalha em sintonia.

Méritos também para o diretor que faz uma direção segura no filme, sem cair em clichês, e leva uma mistura de sensações para quem o assiste. O filme é provocativo, emocionante, dramático, apavorante e levará o público, provavelmente, a questionar e debater o desenvolvimento da história e o seu final.

Esquecido pelo Oscar, mas lembrado em diversos festivais (incluindo Cannes), infelizmente, na programação dos próximos meses nos cinemas brasileiros, sua exibição não está relacionada. É uma pena, até pela boa repercussão que recebeu fora de nosso país. Sua exibição na tela grande seria bem interessante. De qualquer forma, fica a dica e a recomendação para a busca pela internet, até sua distribuição nas locadoras que pode demorar...

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

O HOMEM ERRADO - 1956

Hitchcock muda de gênero e também acerta. 


Não está entre as realizações mais famosas ou assistidas de Hitchcock, mas este O Homem Errado é um grande filme e merecia um destaque maior. O fato de ser o único filme baseado em fatos reais do diretor, talvez possa explicar um pouco seu menor valor entre seus apreciadores. Hitchcock, neste filme, foge de seu gênero preferido, o suspense, e faz um drama, literalmente. Pode ser diferente de grande parte de sua filmografia, mas o resultado final está no alto nível de outros clássicos que já fez.

A década em que realizou este filme foi uma década inspirada para o diretor, repleta de filmes marcantes como Janela Indiscreta, Pacto Sinistro, Ladrão de Casaca, Um Corpo Que Cai, a refilmagem de O Homem Que Sabia Demais, Intriga Internacional, Disque M Para Matar e ainda outros mais... Enfim, certamente uma década de grandes sucessos que fizeram com que este O Homem Errado, passasse um pouco despercebido por não seguir a mesma linha dos filmes citados acima.

A história como escrevi antes, é verídica e mostra o músico Manny, interpretado por Henry Fonda, que leva uma vida normal trabalhando à noite para sustentar seus dois filhos e esposa. Com dificuldades financeiras, suas contas aumentam quando sua esposa necessita realizar uma cirurgia odontológica. Para ajudar a pagar este gasto, recorre ao seguro de vida dela para conseguir um empréstimo. Quando chega ao local, para obter este empréstimo, é acusado de ser um assaltante que vem praticando roubos no bairro. A partir daí, sua vida e a de seus familiares mudam.

Diferente das tramas comuns de suspense, em que o ator principal busca o verdadeiro culpado, quando acusado de algo que não cometeu, o foco deste filme se direciona à mudança de rotina de Manny e como isso afetará as pessoas à sua volta. O filme deve muito de seu bom resultado final à atuação de Henry Fonda, um astro na época, que faz um trabalho impecável. Impressiona a forma como ele se mantém em um estado de choque contínuo e praticamente não sorri durante todo o filme.

Com Hitchcock em grande fase, falar bem da direção neste filme é o tal chover no molhado. Mesmo sendo um drama, não faltam momentos tensos bem encaixados a sua trilha sonora característica, que ajuda a manter esta tensão. É a realização cinematográfica mais realista que já fez, não só por ser baseado em fatos reais, mas pelas características e atitudes dos personagens. Posso dizer isso pelo menos em relação aos vários filmes que já vi do diretor.

Não faz parte dos mais lembrados filmes do mestre do suspense, mas é um filme essencial para os fãs e uma boa pedida para quem gosta de cinema antigo. Recomendado!

http://www.imdb.com/title/tt0051207  

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

A SEPARAÇÃO - 2011

Não tenha medo ou preconceito. Filmaço!


Às vezes tenho um pouco de medo quando um filme é ovacionado por todos os críticos de cinema. Fico com um pé atrás achando que o filme pode ser chato como outros que são valorizados exageradamente. Pois bem, dessa vez a unanimidade está certa. Esse filme iraniano vale a repercussão que está tendo.

Não foi à toa que este filme, aclamado nos festivais que passou, já recebeu o prêmio de melhor filme estrangeiro no Globo de Ouro e concorre no final deste mês ao Oscar nesta mesma categoria. E ainda mais, foi nomeado no mesmo Oscar para o prêmio de melhor roteiro original que, sem dúvida, é uma de suas virtudes.

Falando um pouco sobre a história, já na primeira cena, vemos o casal Nader e Simin discutindo o divórcio em frente a um juiz. A esposa Simin quer ir morar fora do país, para dar uma vida melhor à filha do casal, mas Nader não aceita, pois tem de cuidar de seu pai com Alzheimer. Simin sai de casa temporariamente e deixa o marido, a filha e seu sogro. Sem a esposa, Nader decide contratar uma cuidadora para ajudar seu pai. A separação do casal, na verdade, é o fato que dará início a uma série de complicações.

Independente dos problemas políticos do Irã e o relacionamento difícil de interesses sem fim com países vizinhos e os EUA, vale dizer que, acima de tudo, o filme trata sobre o ser humano comum, suas fraquezas, virtudes e suas decisões muitas vezes egoístas. E nas atitudes normais do homem, temos um dos principais diferenciais do filme, os personagens. Eles são muito bem escritos, verdadeiros, reais... Não existe o bem contra o mal. As atitudes de cada um, certas ou erradas, são aceitáveis. Todos, sem exceção, têm sua parcela de culpa e razão. E o curioso é que com o andamento da história, parece que a culpa ou razão de cada um pode se inverter.

O filme é essencialmente um drama, mas tem uma dinâmica tão impressionante que os acontecimentos vão quase se atropelando. Desde o início, você já se vê completamente envolvido com o desenrolar da história. O roteiro é muito bem amarrado, empolgante, sem clichês, sem falhas, pelo menos não achei nenhuma... Brilhante. Todo o elenco funciona bem com atuações convincentes. O destaque maior fica para a atuação do pai de Nader, o senhor com Alzheimer, que é fora do comum.

É uma realização inspirada e altamente recomendada, inclusive para aqueles que dificilmente dão chances para filmes de países com pouca ou nenhuma tradição no cinema. Ainda em circuito nos cinemas, tem potencial para agradar a maioria dos espectadores.

http://www.imdb.com/title/tt1832382/

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

O HOMEM DO LADO - 2009

Alto nível do cinema argentino.


Esse filme serve para comprovar mais uma vez que o cinema argentino está realmente bem à frente do brasileiro. Depois dos filmes recentes com Ricardo Darín, O Segredo dos Seus Olhos e Um Conto Chinês, além de outras produções argentinas bem interessantes nos últimos anos, O Homem do Lado é mais uma realização que indico sem pensar duas vezes. Não à toa, foi um dos principais premiados no Festival de filmes independentes de Sundance em 2010.

A história mostra uma relação conturbada de vizinhos. O protagonista é Leonardo, um designer industrial que mora com esposa, filha e empregada na única casa criada pelo renomado arquiteto Le Corbusier, em La Plata na Argentina. Leva uma vida com relativo sucesso profissional, mas seus relacionamentos familiares não andam muito bem, principalmente, com sua filha. A coisa desanda quando seu vizinho, Victor, resolve fazer uma janela de frente e bem próxima  à casa de Leonardo, tendo início a briga entre vizinhos.

A ótima cena inicial, filmada em split screen (tela dividida), já mostra que a experiência será boa. Introduz de forma simples e original a história que virá a seguir. O filme tem roteiro bem estruturado e inteligente, personagens bem construídos  e bem detalhados. Leonardo é aquele típico profissional que pensa ser mais bem sucedido do que realmente é, do tipo sofisticado e artístico demais, mal-humorado, preconceituoso e metido. Em contrapartida, Victor é bem-humorado, brega e bruto. Essa oposição entre eles cria situações engraçadíssimas, mesmo que o filme seja essencialmente um drama.

Algumas cenas, como as discussões de Leonardo com sua esposa (cena da foto abaixo especificamente), a doação de uma "obra de arte" de Victor para que se reconciliem e  o momento em que Leonardo ouve em casa uma música experimental com um amigo, enquanto confunde com as marteladas da obra, são apenas exemplos realmente marcantes. E se não bastasse as diversas qualidades que percebemos durante o filme, ainda tem um desfecho memorável.

Como disse antes, é mais uma ótima realização do cinema argentino, em ótima fase faz tempo. Recomendadíssimo.

http://www.imdb.com/title/tt1529252

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

O ESPIÃO QUE SABIA DEMAIS - 2011

Diretor promissor, grande elenco, boa trama... Não tem erro.


Confesso que estava com certa expectativa antes de entrar na pré-estréia desse filme. Não tinha como ser de outra forma. Em primeiro lugar, é dirigido pelo sueco Tomas Alfredson, que virou, merecidamente, uma espécie de sensação do cinema europeu atual depois de realizar Deixe Ela Entrar, uma pequena obra-prima que mistura drama e terror em grande estilo. Além da curiosidade por este novo trabalho do diretor, o filme tem o melhor elenco inglês atual reunido dos últimos tempos. A notícia boa é que a expectativa foi superada e o filme merece mesmo a repercussão que está conseguindo.

É bom alertar antes, que o nome O Espião Que Sabia Demais serve para enganar o público, como normalmente acontece. O nome original do filme é Tinker Taylor Soldier Spy, bem apropriado ao conteúdo da história. Pior ainda é a propaganda dele na televisão, que mais parece um trailer do novo Missão Impossível. Na verdade, é a velha estratégia de comunicação manjada para atrair mais a atenção do público e, consequentemente, trazer maior rentabilidade. Só espero que, quem for ao cinema esperando um suspense com ação, não fique insatisfeito... A proposta é outra.

A história acontece no auge da Guerra Fria e mostra os bastidores do Serviço Secreto de Inteligência Britânico. Gary Oldman, o protagonista George Smiley, é o encarregado de descobrir a identidade de um possível traidor que está fornecendo informações sigilosas para algum agente secreto russo. Os suspeitos fazem parte do alto escalão dos agentes ingleses, chamado também de The Circus, do qual inclusive Smiley fazia parte até se aposentar recentemente contra sua vontade.

O filme é baseado no romance de John Le Carré, que inclusive participa do filme como produtor executivo, e faz parte de uma trilogia escrita por ele sobre o serviço secreto inglês. Inclusive o livro em que se baseia este filme, já teve uma adaptação anterior que virou uma minissérie no final dos anos 70. Le Carré também teve outros romances adaptados com sucesso para o cinema como O Jardineiro Fiel, dirigido pelo brasileiro Fernando Meirelles, e O Alfaiate do Panamá com Geoffrey Rush e Pierce Brosnan.

A nata do cinema inglês atual está presente neste filme. Colin Firth (O Discurso do Rei), Tom Hardy (A Origem), Mark Strong (Sherlock Holmes, Lanterna Verde), Benedict Cumberbatch (da excelente série Sherlock da BBC) são alguns exemplos, além de medalhões como o já citado Gary Oldman e também John Hurt. Se não bastasse o elenco de peso, que facilmente seguraria uma produção mediana, a direção também está na mesma altura. Alfredson nos apresenta os segredos, as mentiras e a difícil relação interna de um Serviço Secreto de uma forma elegante e calma que não se vê em filmes deste tipo. Há um clima de desconfiança geral do início ao fim. E com a trama se revelando lentamente, o diretor prioriza  diálogos inteligentes, ao invés de cenas de ação. É como imagino um departamento de espionagem real mesmo! A história inteligente e complexa pode até fazer você perder a linha de raciocínio e confundi-lo em partes, mas o lado bom é que não deixará você desgrudar os olhos da tela. A ambientação anos 60/70 é primorosa, a trilha sonora encaixa perfeitamente, os diálogos são marcantes  e a trama envolvente... São algumas das qualidades que, somadas a um elenco como esse, faz o filme ser especial.

Não foi lembrado para as premiações do Globo de Ouro, mas ainda é esperado indicações em algumas categorias do Oscar. Irá estrear nos cinemas neste final de semana, dia 20 de janeiro, e é altamente recomendado.

http://www.imdb.com/title/tt1340800


quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

UMA PASSAGEM PARA A VIDA - 2002

Um achado do cinema frânces atual.


Após assistir este filme na última semana, cujo nome original é L'Homme du Train, descobri que uma refilmagem americana dele acaba de sair com o nome Man On The Train. Antes de assistir o remake, na verdade não pretendo assistir, recomendo evitar por várias razões, principalmente, pelo estilo europeu do filme. Não acredito que a refilmagem consiga seguir a mesma linha do original porque, definitivamente, a diferença de estilo de cinema é grande. Já é difícil encarar um bom remake e, nesse caso, prefiro não arriscar. Posso me enganar também...

Na história, um homem misterioso e quieto desembarca de trem em uma pequena cidade. Aparentemente, sem lugar para ficar, encontra por acaso um simpático professor aposentado, solitário e interessado pela possível nova amizade. Completamente opostos, iniciam um relacionamento quase improvável quando o professor oferece sua casa para hospedar o homem misterioso até o próximo sábado. Curiosamente, ambos têm um compromisso neste mesmo dia na cidade.

O professor, que desde o início mostra sua vida regrada e metódica, vai aos poucos demonstrando sua frustração por não ter vivido de outra forma, e o outro homem, seu oposto, vive sem planejar o futuro, mas se apega ao modo simples de vida do professor. O filme caminha desta forma, com os dois cada vez mais interessados em conhecer o estilo de vida diferente de cada um.

O roteiro não traz grandes reviravoltas ou grandes conflitos, até o clímax, porque a ideia é aos poucos mostrar a atração dos dois personagens pela vida oposta que cada um leva... O desenrolar da história pode requerer uma certa paciência inicial, mas quem a tiver, aproveitará uma realização cinematográfica de altíssimo nível que proporciona, além de uma ambientação interiorana primorosa e ótimos diálogos,  que mostram a riqueza de detalhes dos personagens, um desfecho que certamente ficará em sua memória por um bom tempo.

É melhor parar por aqui para que o envolvimento que tive assistindo-o você também possa aproveitar, mas queria apenas complementar mencionando duas cenas, de cada um dos personagens, que estão também frescas na memória e explicam bem a ideia do filme... O professor brincando de pistoleiro em frente a um espelho e o homem misterioso comprando pães na padaria. Simples, porém sintetizam o conceito do filme.

Um filme de bom gosto, refinado, silencioso e tenso em partes, que cativa e emociona, além de outras qualidades mais. Enfim, me deixou extremamente feliz por tê-lo assistido.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

ANOTHER EARTH - 2011

Drama/Sci-Fi aberto para discussões.


Assisti nesta semana este belíssimo filme que venceu em 2011 o prêmio especial do júri no Festival de Sundance e esteve presente também na Mostra de Cinema do Rio de Janeiro. É um filme independente que traz uma história que mistura drama e ficção-científica. Os envolvidos no filme são praticamente novatos, porém promissores, como falarei mais pra frente.

A história mostra, inicialmente, a protagonista Rhoda Williams de 17 anos comemorando seu ingresso em um programa importante de astrofísica. Ao dirigir seu carro, após beber mais do que devia, recebe pelo rádio a notícia da descoberta de um novo planeta próximo à Terra. Interessada, procura o planeta ao mesmo tempo que dirige e causa um acidente fatal envolvendo um casal e seu filho. Neste acidente, a mãe e o garoto morrem, enquanto o pai fica em coma. Após 4 anos presa, ao tentar reiniciar sua vida, reencontra este homem viúvo. Enquanto isso, paralelamente, o outro planeta, que já está bem visível e bem próximo ao nosso, é chamado de Terra 2, razão que saberemos o porquê durante o filme.

A história de reencontro entre agressor e agredido e a forma de lidar com traumas, não é novidade nos cinemas, mas o diretor consegue dar uma sensibilidade interessante neste relacionamento e explora conjuntamente uma boa ideia de ficção, cheia de simbolismos. É um filme emocionante, profundo e vai fazer você refletir. Para quem aprecia uma boa e bem dirigida ideia, sem querer aprofundar muito, também poderá apreciar esta realização.

Poucos filmes como esse geram essa vontade de decifrar um pouco mais as mensagens que são passadas. E mesmo sendo um filme independente e de baixo orçamento, percebe-se uma realização de muito bom nível... Trilha sonora marcante, câmera de mão bem utilizada e cenas memoráveis, como o acidente por exemplo, que mostram o talento de um novo diretor chamado Mike Cahill. Vamos acompanhar seus próximos trabalhos.

As interpretações também são ótimas e vale uma menção à protagonista, Brit Marling, que também escreveu o roteiro. Ela é nova e demonstra um bom potencial de intepretação e imaginação, pois já está em um outro filme como protagonista e roteirista também, chamado Sound of My Voice, que mostra novamente uma temática diferente e interessante. Espero que trilhe este caminho trazendo boas e diferentes ideias e transforme esse potencial em realidade.
Recomendado!

http://www.imdb.com/title/tt1549572

terça-feira, 8 de novembro de 2011

PRONTO PARA RECOMEÇAR - 2010

Will Ferrell surpreende em mais um papel sério.


Sem grande propaganda, estreiou nos cinemas este último trabalho estrelado pelo Will Ferrell. Fácil de entender a pouca divulgação e distribuição do filme nos cinemas, pois o único apelo comercial, mais nos EUA do que aqui, é a presença deste engraçado e flexível ator, talvez um dos últimos comediantes a sair do Saturday Night Live e fazer grande sucesso nos cinemas atualmente. E realmente, ele fazendo um papel sério, visto também no ótimo Mais Estranho que a Ficção, não chama muito a atenção do público em geral. Então, para quem espera um filme engraçado ou animado, verá o contrário. Aos desavisados, temos aqui um drama reflexivo que vale a pena conferir.
Na história, Ferrell faz o papel de um alcoólatra que acabou de perder seu emprego de vice-presidente de vendas em uma grande empresa e, para piorar, no mesmo dia de sua demissão, sua esposa sai de casa colocando todos os seus pertences no jardim da frente. Sem ter o que fazer e em uma espécie de choque, não lhe faltará tempo para pensar e refletir morando em seu próprio quintal.
Mesmo com esta descrição, o filme não é daqueles em que o personagem irá atingir o fundo do poço, dará a volta por cima ao estilo Jerry Maguire e a moral da história aparecerá no final. Ele precisa entender o que é importante em sua vida, descobrir seus erros e mudar suas atitudes, mas a história não é contada com sentimentalismo.
É bom não levar em consideração o título em português também. O personagem não está pronto para recomeçar, na verdade, acontece o contrário. O título original, Everything Must Go, que tem um sentido de desapego, deveria ter sido respeitado porque define muito melhor a  história... ele tem um caminho longo até estar pronto para o recomeço.
O argumento da história e seu desenvolvimento de forma lenta lembram dois dramas, Flores Partidas e Encontros e Desencontros. Isso é curioso porque ambos têm como protagonista o Bill Murray, outro comediante fazendo papéis sérios.
Além do resultado final ser bem satisfatório, principalmente, para quem se interessa por filmes sobre reflexão pessoal, vale muito ver a impressionante atuação do Will Ferrell que dá ao personagem um olhar profundo, intenso, sincero e mostra que é tão flexível quanto Bill Murray ou Jim Carrey... vê-lo nos quadros do Saturday Night Live e neste papel é interessantíssimo! 
Está em exibição nos cinemas, mas não em grande circuito. Recomendado.
http://www.imdb.com/title/tt1531663


terça-feira, 1 de novembro de 2011

THE ECLIPSE - 2009

Filme irlandês mistura drama, romance e terror!


Está aqui uma mistura, no mínimo, curiosa... não consegui definir em qual gênero o filme se encaixa. É um filme irlandês que faz uma mistura, muito bem por sinal e pouco comum, de drama, romance e terror. Confuso? Pois é, a questão é que deu certo e posso dizer que, mesmo com um foco maior no romance e no drama, as cenas de horror são realizadas bem acima da média comparado aos diversos filmes de terror lançados por aí. 
A história tem como principal personagem Michael Farr, um professor de carpintaria, ou algo parecido, que também ajuda na organização de encontros e palestras literárias. Ele vive um momento difícil, junto com seus dois filhos, após a morte recente de sua esposa com câncer. Difícil também é o relacionamento com seu sogro. As coisas começam a mudar quando, em um destes encontros que organiza, inicia uma relação mais próxima com uma escritora, Lena Morrell, ao mesmo tempo em que um outro escritor famoso, Nicholas Holden, demonstra estar apaixonado por ela. Além do desenrolar deste triângulo amoroso e os problemas pessoais de cada um deles, algumas visões de fantasmas começam a atormentar Michael... aí estão as misturas de gêneros!
O núcleo principal do filme está nestes três personagens e, mesmo que a história se desenvolva de forma lenta, tem intensidade e prende a atenção, além de ter um certo estilo e charme difíceis de se ver hoje em dia. Talvez a ótima trilha sonora dramática, os conflitos entre os personagens que, na minha opinião, são muito bem construídos e fogem do clichê, o bom equilíbrio drama/romance/terror (mesmo que essa mistura pareça um pouco confusa) e as belas paisagens sejam alguns dos fatores que trazem esse charme ao filme.
Pouco divulgado e sem a menor ideia se será lançado por aqui tão cedo, acredito que vale a recomendação e espero que agrade, a quem procurar, como me agradou.
http://www.imdb.com/title/tt1346961